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Pacientes mais jovens, sobreviventes de câncer, raramente tomam medidas para evitar a infertilidade

Há quase meio milhão de sobreviventes de câncer em idade reprodutiva nos EUA. E um novo estudo – Racial, socioeconomic, and demographic disparities in access to fertility preservation in young women diagnosed with cancer –, publicado na revista Cancer, revela que neste grupo, poucas mulheres estão tomando medidas preventivas para assegurar que poderão ter filhos, após o tratamento da doença.

No Brasil, não há dados por faixa etária que mostrem a realidade dos jovens com câncer em todo o país. A Fundação Oncocentro de São Paulo, que reúne registros da doença no Estado, contabilizou 23.138 novos casos em pessoas com 19 a 39 anos, de 2000 a 2007, em 63 hospitais estaduais que têm atendimento oncológico. Como o registro é parcial e não considera o setor privado, os números podem ser muito maiores.

A pesquisa americana – que se concentra especificamente em mulheres jovens – também revela disparidades raciais, econômicas e demográficas em relação à forma como estas mulheres têm acesso aos serviços de preservação da fertilidade, bem como ao aconselhamento médico sobre os possíveis efeitos do tratamento do câncer sobre sua fertilidade.

“Os tratamentos contra o câncer podem causar interferência no funcionamento do hipotálamo e da hipófise; perda da função uterina normal; destruição total ou parcial da reserva de óvulos no ovário, ocasionando falência ovariana imediata ou em tempo variável e ainda dificuldade de predizer o potencial reprodutivo futuro”, explica o ginecologista Nelson Júnior, diretor do Projeto ALFA, Aliança de Laboratórios de Fertilização Assistida.

No novo estudo, mais de 1.400 mulheres com idades entre 18 e 40 anos responderam perguntas sobre sua saúde e seus históricos de doenças. As participantes da pesquisa tinham vários tipos de câncer: leucemia, doença de Hodgkin e Linfoma não-Hodgkin, câncer de mama e câncer gastrointestinal.

Globalmente, 61% das entrevistadas disseram que seus oncologistas as tinham aconselhado sobre os possíveis riscos que os tratamentos de câncer representavam para a sua fertilidade futura. Este percentual, de acordo com os pesquisadores, representa um aumento na prevalência do aconselhamento nos EUA. Este aumento pode ser resultado das recomendações da Sociedade Americana de Oncologia Clínica, que em 2006, emitiu recomendações que determinavam que todas as mulheres devem receber aconselhamento reprodutivo, antes do início da terapia do câncer.

No entanto, a nova pesquisa revela ainda lacunas significativas entre as mulheres que receberam aconselhamento reprodutivo e as que não o receberam. Pacientes com nível superior apresentaram uma chance 20% maior de receberem aconselhamentos em relação às       que não tinham ido à faculdade. As que já tinham filhos, eram jovens, brancas e heterossexuais também apresentaram mais chances de serem informadas sobre os possíveis efeitos dos tratamentos contra o câncer na sua capacidade de conceber.

O estudo também revela que enquanto mais da metade das entrevistadas tinha sido aconselhada sobre a possível infertilidade, decorrente de sua terapia de câncer, apenas 4% realmente tomou medidas para preservar seus óvulos e/ou embriões.

“A preservação da fertilidade da paciente com câncer é uma espécie de ‘terra de ninguém’, porque é um híbrido entre o câncer e o campo da infertilidade. Poucos são os profissionais que tratam o câncer e têm treinamento especializado para discutir as opções de preservação da fertilidade feminina, antes que elas iniciem os seus tratamentos contra o câncer”, afirma o ginecologista Nelson Júnior.

Importância da preservação da fertilidade

Atualmente, os tratamentos contra o câncer disponíveis – tanto nos EUA, quanto no Brasil –  têm melhorado significativamente, o que significa que a sobrevivência é uma realidade para mais e mais pacientes. “Isto exige que os profissionais de saúde concentrem mais esforços sobre o aconselhamento dos pacientes com câncer sobre a preservação da fertilidade, particularmente à luz das atuais disparidades sociais reveladas pela pesquisa”, observa o diretor do Projeto ALFA.

“Precisamos evitar o golpe duplo. Primeiro, a paciente é diagnosticada com câncer. Depois, caso sobreviva ao tratamento, ela ainda recebe a má notícia que está infértil. Estamos ficando bons em salvar vidas, a medicina progride a passos largos neste sentido. Agora, temos a obrigação de nos certificarmos de que a qualidade de vida, após o câncer, é tão alta quanto pode ser. E isto inclui a preservação dos direitos reprodutivos da paciente”, defende Nelson Júnior.

FONTE: JORNAL DIA A DIA