Carreira e Maternidade: o relógio biológico não precisa determinar o ritmo da sua vida
Por décadas, mulheres foram colocadas diante de uma escolha que parecia inevitável: investir na carreira ou priorizar a maternidade. Hoje, essa narrativa começa a mudar. A medicina reprodutiva, aliada a mais informação e planejamento, oferece novas possibilidades para quem deseja construir uma trajetória profissional sem necessariamente abrir mão do projeto de ter filhos.
A questão, porém, não é escolher entre carreira e maternidade. É entender como tempo, fertilidade e planejamento de vida se relacionam.
Essa discussão ganhou ainda mais relevância à medida que a maternidade passou a acontecer mais tarde. Dados apresentados pela CNN Brasil com base em informações do IBGE mostram que, entre 1998 e 2018, houve aumento de 71,18% nos primeiros filhos entre mulheres de 35 a 39 anos e de 50,23% entre mulheres de 40 a 44 anos.
A mudança acompanha transformações sociais importantes: maior participação feminina no mercado de trabalho, busca por independência financeira, mais anos dedicados à formação acadêmica e profissional e mudanças nos projetos afetivos e familiares.
Mas existe um ponto que precisa fazer parte dessa conversa: a carreira pode ser planejada em diferentes momentos; a fertilidade feminina tem uma janela biológica mais limitada.
O paradoxo entre o auge profissional e a fertilidade
Os anos de maior investimento em formação, especialização e crescimento profissional costumam coincidir com uma fase importante da vida reprodutiva.
A Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM) considera a idade feminina o principal fator preditivo da fecundidade. A fertilidade diminui progressivamente com o avanço da idade, especialmente após os 35 anos, em grande parte devido à redução da quantidade e da qualidade dos óvulos e ao aumento da frequência de alterações cromossômicas nos embriões.
Isso não significa que engravidar depois dos 35 ou 40 anos seja impossível. Significa que, estatisticamente, as chances de concepção diminuem e alguns riscos reprodutivos aumentam.
Segundo dados nacionais de reprodução assistida dos Estados Unidos, por exemplo, a proporção de ciclos que resultaram em nascimento vivo utilizando óvulos ou embriões próprios foi de aproximadamente 43% aos 30 anos, 41% aos 35, 32% aos 40 e 25% aos 42 anos, mostrando como a idade influencia os resultados mesmo quando há acesso à reprodução assistida.
É importante destacar que esses números são de reprodução assistida e não representam a chance de gravidez natural de uma mulher individual. Os resultados também variam conforme diagnóstico, reserva ovariana, número de óvulos ou embriões disponíveis e estratégia de tratamento.
O que acontece com a fertilidade ao longo dos anos?
Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, a idade não influencia apenas a quantidade de óvulos disponíveis. Ela também está relacionada à qualidade dos óvulos.
A reserva ovariana representa, de forma simplificada, o número de óvulos disponíveis nos ovários. Ela diminui naturalmente ao longo da vida. Porém, exames como o hormônio antimülleriano (AMH) e a contagem de folículos antrais não conseguem, sozinhos, prever a capacidade de uma mulher engravidar naturalmente. A ASRM ressalta que esses exames devem complementar - e não substituir - a avaliação da idade e do histórico reprodutivo.
Por isso, falar em planejamento reprodutivo não significa recomendar que todas as mulheres congelem seus óvulos. Significa oferecer informação para que cada pessoa possa avaliar suas possibilidades no momento adequado.
Preservação da fertilidade: tecnologia a favor do planejamento
Nesse cenário, o congelamento de óvulos passou a fazer parte das conversas sobre planejamento reprodutivo.
No Brasil, os dados do Sistema Nacional de Produção de Embriões (SisEmbrio), da Anvisa, mostram um crescimento expressivo da utilização da técnica. Entre 2020 e 2023, o número de óvulos congelados passou de 56.710 para 111.413, um aumento de aproximadamente 96,4%. Entre mulheres com menos de 35 anos, o número passou de 23.033 para 45.203 óvulos congelados no mesmo período.
Outro dado relevante: os ciclos de congelamento de óvulos entre mulheres com menos de 35 anos cresceram 49% entre 2020 e 2023, enquanto entre mulheres acima dessa idade o crescimento foi de 40%.
Esses números refletem uma mudança importante: cada vez mais mulheres estão considerando a preservação da fertilidade antes de uma eventual queda mais acentuada do potencial reprodutivo.
Vitrificação: preservar hoje para ampliar possibilidades amanhã
A principal técnica atualmente utilizada para a criopreservação de óvulos é a vitrificação, um método de congelamento ultrarrápido que reduz a formação de cristais de gelo capazes de danificar as estruturas celulares.
A evolução dessa tecnologia foi fundamental para tornar o congelamento de óvulos uma alternativa mais eficiente de preservação da fertilidade. Dados divulgados no Brasil apontam taxas de sobrevivência dos óvulos após o descongelamento próximas de 90%, embora os resultados possam variar de acordo com idade, laboratório, protocolo e características individuais.
Mas existe um ponto fundamental: congelar óvulos não significa garantir uma gravidez no futuro.
A idade no momento do congelamento é um dos fatores mais importantes para os resultados. A HFEA, autoridade britânica responsável pela regulação da reprodução assistida, ressalta que a idade em que os óvulos são congelados tem maior impacto sobre as chances futuras do que a idade em que eles são descongelados.
Por isso, a preservação da fertilidade deve ser encarada como uma estratégia para ampliar possibilidades, e não como uma espécie de 'seguro' ou garantia de maternidade.
Planejamento não significa adiar indefinidamente
Existe uma diferença importante entre adiar uma decisão e planejá-la.
Uma mulher pode escolher priorizar a carreira durante determinado período, investir em uma formação, abrir uma empresa, assumir uma posição de liderança ou simplesmente esperar o momento em que se sinta preparada para ter filhos.
A medicina reprodutiva não determina qual deve ser esse momento. Ela pode ajudar a mulher a compreender como suas escolhas atuais podem se relacionar com suas possibilidades futuras.
E quanto mais cedo essa conversa acontece, maior pode ser o espaço para decisões conscientes.
A própria ASRM reconhece que o crescimento da idade materna está relacionado, entre outros fatores, ao aumento da participação das mulheres na educação e no mercado de trabalho - justamente em um período da vida em que a reserva ovariana começa a declinar.
Carreira e maternidade não precisam ser escolhas excludentes
A mulher não precisa escolher entre ser uma profissional bem-sucedida e construir uma família.
Mas também não precisa ignorar os aspectos biológicos envolvidos nessa decisão.
Informação é uma forma de autonomia.
Conhecer a própria reserva ovariana, entender os efeitos da idade sobre a fertilidade, conversar com um especialista e conhecer alternativas como a preservação da fertilidade pode transformar uma decisão tomada sob pressão em uma decisão baseada em planejamento.
O objetivo não é fazer com que todas as mulheres congelem seus óvulos. É garantir que elas tenham acesso à informação necessária para decidir se, quando e como desejam construir sua família.
Porque o relógio biológico existe, mas ele não precisa ser o único relógio determinando o ritmo da sua vida.
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Fontes e dados de referência
ASRM - American Society for Reproductive Medicine: fertilidade, idade e avaliação da reserva ovariana.
CDC - Centers for Disease Control and Prevention: dados nacionais de reprodução assistida e resultados por idade.
Anvisa/SisEmbrio: dados brasileiros de reprodução assistida e criopreservação.
HFEA - Human Fertilisation and Embryology Authority: evidências sobre congelamento e vitrificação de óvulos.
IBGE: dados sobre o adiamento da maternidade no Brasil, conforme levantamento divulgado pela CNN Brasil.
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